quinta-feira, junho 02, 2005

Esforço

“Bem raros são aqueles cuja vida tenha um destino espiritual. Quantos o procuram, e, entre estes últimos, quantos não desistem! (…) Que loucura pensar que a fé e o bom senso nos podem nascer tão naturalmente como os dentes, a barba e o resto.”
Kiekegaard in “Desespero Humano”


quarta-feira, junho 01, 2005

Os meus Açores...

Pronto, cheguei à conclusão de que não fui feito para grandes cidades. Não são para a minha construção.
Podia contar a história toda, mas não o vou fazer. Basta-me dizer que tinha que estar às 18:30 na faculdade de economia, e a caminho de lá, fui orientado por pessoas que sabiam menos do que eu.
Resultado, fui à faculdade de ciências sociais, passei pelo jardim da Gulbenkian, passei perto do “Amoreiras”, voltei para trás, pelo mesmo caminho que tinha feito para voltar ao “El corte inglês” e ir à sinagoga, descobri, entretanto, que era lá perto.
Queria reafirmar que, pedi orientação aos transeuntes e todos me davam a sua opinião. O meu problema, é ser demasiado crédulo.
Ia para um ensaio, consegui chegar a horas. Estava encharcado em suor (hoje estava mesmo muito calor), cansado, mas já estava a caminho com o meu amigo, que por essa altura, já tinha chegado.
Foi um serão bem passado, a recordar hinos, com o Pianista, o Rais, a Voz, e mais dois amigos meus, o Cado e o Almi. Louvámos, e até havia uma criança no nosso meio para garantir a veracidade do nosso louvor.
No fim, valeu a pena a busca. Tudo o que custa, sabe melhor…
Tocamos este domingo de manhã na Igreja de Rio de Mouro.

Uma clarificação

Creio ser de importância para o contexto, informar que o post abaixo publicado, foi a minha primeira tentativa de ficcionar.
O acontecimento ali retratado não aconteceu mesmo. Não obstante, agradeço de sobremodo o convite e o conselho a mim endereçado pelos comentários lá escritos.
A nossa segurança não vem das circunstâncias, creio eu assim.

A festa

Estou a caminho da casa dele e já oiço o som da música e da conversa.
Chego lá, não conheço ninguém, apenas o aniversariante. Todos falam com todos, menos comigo, creio que seja por não me conhecerem.
De repente, encho-me de coragem e pergunto a um estranho o seu nome, o que faz, as especificidades do que faz… ele, responde-me e rapidamente, esgota-se o tema de conversa.
Naturalmente que ele, mal encontra uma oportunidade, vai falar com outra pessoa, visto que após esta “prosa mútua”, ficámos uns bons cinco minutos a olhar para as paredes e para as conversas que os outros tinham.
Voltei a reparar que todos continuavam a falar com todos, menos comigo. Seria mesmo apenas da minha pouca fama no círculo? Será que cheirava mal? Seria uma partida, ou então já sabiam todos, que não era grande comunicador?
O que me salvaria deste estado?
“E se entrasse um amigo meu para falar comigo? Ou se eu recebesse um telefonema que justificasse a minha saída? Ou mesmo se perdesse toda a vergonha e entrasse tipo “penetra” nas conversas dos outros, fazendo-me muito interessado e contente.” Cogitava eu com o meu coração…
Nada disso, a minha solução é muito mais ao meu estilo, ao estilo de uma pessoa quieta, aquela pessoa que ninguém nota pela sua presença numa sala, aquela pessoa que é sempre a última a ser escolhida para fazer parte de uma equipa porque ninguém sabe se joga bem.
“É a primeira vez que cá estás? Não, venho todas as semanas, mas não costumo jogar… adeus.” É a conversa típica minutos antes de se começar a jogar.
Já foi uma sorte ter me sentado no sofá. Quase sempre fico de pé e mais tarde ou mais cedo sem saber bem o que fazer com os braços…
Lá, nesse sofá reparo que bem à minha frente há uma televisão; poderá ser esta a minha solução?
Ligo-a, e, como de costume, faço uma passagem por todos os canais disponíveis, mas o aniversariante tem só serviço público.
Por mais ridículo que seja o programa que está a dar, ele é a minha bóia de salvação. Concedo-lhe toda a minha concentração, assim, não sinto necessidade de outra pessoa. A festa não está a ser uma festa, o que faço, fazia-o em casa, mas confesso que seria bem homenzinho para passar ali a noite toda, refugiado no ecrã, na minha conversa com a caixinha.
As outras pessoas, reparo, não sentem a mínima necessidade do meu refúgio.
Por vezes, quando a festa acaba, a sua aparente segurança passa, tal como a minha segurança era temporária e enganosa. Outras vezes não, outras vezes também me sinto perfeitamente ajustado em festas.
Mas pergunto-me, será possível termos uma segurança que vá para além destas circunstâncias?

terça-feira, maio 31, 2005

Idolatria

“Filho do homem, estes homens levantaram os seus ídolos no seu coração e o tropeço da sua maldade puseram diante da sua face; devo eu de alguma maneira ser interrogado por eles?”
Ezequiel 14: 3

A idolatria do homem, não são apenas, as imagens ou os ícones que ele coloca defronte de si, não é só isto. Toda ela é iniciada no nosso coração, por isso as nossas imagens estão, antes de mais, dentro de cada um de nós.
Fomos feitos para sermos habitados por alguém...

Influências





Neste filme, somos surpreendidos pelo final que assume, a identidade que menos se esperava, é a central na narrativa.
Imagino algo parecido num excerto da história da fase final da vida de Nietzsche. Estigmatizado como aquele que marcou a ideologia Nazi, e foi-o de facto, no entanto creio que numa película, o final seria surpreendente.
A entrega das suas obras, já compiladas e ligeiramente alteradas a Hitler, visto como o paradigma máximo do conceito de “super - homem”, pela sua irmã, Elisabeth Forster-Nietzsche.
Interessante como certas épocas da história são moldadas por nomes, mas outras pessoas, quase anónimas, são completamente determinantes. Uns para bem, outros para mal.







P.S.- Com certeza, isto era algo que já toda a gente sabia. Eu e as minhas novidades...

segunda-feira, maio 30, 2005

O caminho

Tenho uma tendência para sobrevalorizar o estado final das coisas, em detrimento do caminho que me leva a elas.
Só o facto de, esse caminho, ser o meio pelo qual chegamos a esses estados finais, mas também porque toda a nossa vida é um caminho, creio ser relvante face à importância do estado intermédio antes da sua consumação.
Creio que estou, protanto, errado ao ceder à minha tendência.
Aprendi no décimo segundo ano da escolaridade secundária, que, para Camilo Pessanha, o caminho era mais importante do que o estado final.
Creio que devo prestar mais atenção por onde passo, quando vou para algum lugar...

"Eu sou o caminho, a verdade e a vida...", ou seja é o caminho, a forma e o estado final.
João 14: 6 a

Síndrome de Kant

Gosto de chegar ao café e ver o empregado a tirar a bica, sem que eu lhe peça, de jornal em punho para se dirigir à minha mesa.

João Ferreira de Almeida

João Ferreira de Almeida, traduziu a Bíblia quase toda. todo o Novo Testamento e parte do Velho Testamento para português.
Quando morreu, estava na tradução do livro de Ezequiel.
Morreu feliz…

Abraão

A esposa de Lutero dizia que não acreditava na história de Abraão e Isaque, porque Deus não faria isso a um filho, ao que Lutero lhe respondeu, “Mas, Katie, Ele tratou assim o seu próprio filho.”

domingo, maio 29, 2005

Domingo

Rapidamente percebi que o dia de Domingo, é o dia com menos visitas neste blogue.
- Isso é bom sinal! - Diz o meu amigo Evaristo - é sinal de que vão à igreja.

Moínho de vento



Bem poderia ser uma alusão às batalhas que Dom Quixote travou. Mas não, os moínhos de vento são característicos da Ilha Graciosa.
Curiosamente, este açoriano que vos fala ainda não lá foi, mas, dizem as bocas conhecedoras, que, para além dos moínhos, os asnos são animais que lá existem em abundância.
Temos que conhecer esta terra...

sábado, maio 28, 2005

Weekend´s Fotolog III

Continuo com algumas propostas para o vosso verão...



Ilha do Pico, ponto mais alto de portugal, já lá estive.
Tem também uma boa produção de vinho. Dizem os especialistas, que é por causa da natureza da terra vulcânica, que, por ser assim, é extraordinariamente preta, mais preta do que a das outras ilhas (isso já não sei explicar), o que faz que com que o solo, durante o verão, aqueça muito.

sexta-feira, maio 27, 2005

A pergunta

A mais intrincada pergunta feita a um condutor à procura do caminho de casa é:
“Sabes onde estás?”

Ezequiel 16

Nasceste e foste abandonada, deixada num campo, à mercê de quem por ti passasse, ainda suja de sangue, sem consciência. Não havia quem te pegasse ao colo, nem quem te embalasse. O teu embalo era feito pelo vento, frio, tempestuoso por vezes.
Passavam por ti, e não te ligavam, desprezavam-te.
Até que, Ele passou, e olhou para ti e quis que vivesses, cuidou de ti, lavou-te e viu-te crescer.
Embalava-te e dormias nos Seus braços.
Tornaste-te jovem, eras bonita, mas ainda não estavas vestida, também foi Ele quem te deu a roupa, roupa que era dele, tirou de si para ta dar a ti, e vestiu-te.
Começaste a ver outras pessoas, e as outras pessoas começaram a convidar-te para andares com elas. Tal qual uma adolescente, começaste a chegar tarde a casa, mas nem tarde falavas com Ele, nem dizias com quem andavas e o que fazias. Lembras-te?
Agora, crescida, não te lembras de quem te limpou, cuidou, embalou, vestiu…
Vais para a cama com outros, com os mesmos que te desprezavam no início, tal qual uma prostituta, sem amor. No entanto, diferes delas, não te pagam para ires para o seu leito, pagas tu. És tu quem pagas para andares com quem não te ama. Para andares com os teus amantes. E só andam contigo porque lhes pagas...
Ele sabe, e Ele sabe também, que por vezes pensas que não sabe, que por vezes pensas que O consegues enganar.
Como é que Ele deve se sentir contigo? Como é que achas? Ele sabe também que há dias, poucos dias, eles existem, em que tens acessos de consciência, dias em que vês a tua desgraça, em que te vês como que completamente perdida, e choras, e pensas que estás a chorar sozinha, porque quando choras, os teus amantes abandonam-te outra vez.
Mesmo assim, “volta”, diz Ele, a tua vida está de rastos, "quero que saibas que quando choras, não choras sozinha, nem estás só com os teus amantes quando pensas que estás só com eles, Eu estou sempre contigo...", diz o Senhor. Como no início, quando não tinhas ninguém e estavas só naquele terreno, e Ele quer, tal como nesse mesmo início, limpar-te de novo e vestir-te.

quinta-feira, maio 26, 2005

Evangelho

"E Jesus, vendo este deitado e sabendo que estava neste estado havia muito tempo, disse-lhe: Queres ficar são?"
João 5:6

"Então os Judeus disseram àquele que tinha sido curado: É sábado, não te é lícito levar a cama."
João 5:16

Um "evangelho", que se resume ao fantástico, ou então, ao cumprimento da lei, não reconhece Jesus, nem a Sua obra.
Curiosamente, são estas as nossas duas maiores tentações, para pervertermos a mensagem Divina.

Inquisição

Durante a "santa inquisição", matavam-se os fiéis por lerem a Bíblia.
Ufa, dessa já nós nos livrávamos hoje…

quarta-feira, maio 25, 2005

Perdão

Homem santo, eremita, respeitado pelo povo, ao qual vinham para receber bênção, perdão, orientação, consolação.
“Stárets”, era assim chamado.
Aborda-lhe uma mulher, de rosto sofrido, confessa-lhe um pecado, em segredo.
E ele responde:
“O principal é que não se esgote em ti o arrependimento; então, Deus perdoa-te tudo. Não há nem pode haver pecado na terra que Deus não perdoe a quem não se arrependa sinceramente. Nem o homem é capaz de cometer um pecado tão grande que esgote o infinito amor de Deus. Existirá algum pecado que supere o amor de Deus?”
Fiodor Dostoiévski in “Irmãos Karamazov”

Exílio

Se fosse contemporâneo de Daniel, o da cova dos leões e que orava três vezes ao dia, estou certo de que ficaria em Jerusalém.

terça-feira, maio 24, 2005

... o corpo é que paga.

Parte II

Estultice

Um dia, e é deste dia que vos quero falar, tínhamos no nosso quintal um grande monte de lenha, na parte de trás da casa. Mesmo dentro do que foi em tempos, o curral das galinhas, por baixo do castanheiro.
Se é certo que nunca fui agricultor, reconheço que, por outro lado, sempre houve em mim uma certa faceta de piromaníaco. A minha mãe nunca me tinha falado daquela lenha, ou do que haveria de fazer com ela.
Era verão, tempo de férias, e por isso, o ócio abundava grandemente.
Instruções? Tinha-as, mas eram para cortar a relva, podar a vinha, lavar o carro, etc., essas, não as queria, fixava os meus olhos na lenha…
Na noite desse dia, pensei, reflecti, e pouco antes de começar a dormir, planeei:
"Ismael, tens gasolina na garagem, pões um bocado na lenha, e fazes um favor à mãe, que por receio, não te manda queimar a lenha, mas sabes que era o que ela queria que fizesses, e assim, despachas-te daquele incómodo no quintal."
Dormi, contente com as decisões tomadas no meu leito.
De manhã, acordo, e vou de imediato buscar o garrafão com a gasolina, a saber, cinco litros de combustível. Dirijo-me, confiante, para o local de trabalho, e lembro-me:
"As folhas! É a minha oportunidade de me livrar dessas malditas folhas..."
Eram os meus apontamentos de três anos de sofrimento a tentar passar a matemática, no décimo segundo ano do secundário. Essas folhas revelavam muito da minha fraqueza, da minha ignorância. Iam arder, ser esquecidas na história, desaparecer, pensava eu, e que bem que pensava.
Fui ao meu quarto e, com atitude de vingança peguei nelas, "vocês não me apoquentam mais…", disse eu.
Quando cheguei ao monte de lenha, pus as folhas todas em forma de bola pelas frestas dos espaços entre os toros de madeira, depois qual grande cozinheiro, reguei, e bem regado, o holocausto, não de água como Elias mandou, mas do combustível que havia trazido da minha garagem.
Só faltava um rufo de tarola nesta altura, estava tão ansioso que nem aguentava esperar. Peguei no isqueiro, um isqueirozinho, dos isqueiros mais pequeninos que se pode arranjar, sim, daqueles que quando pedimos na "lojeca": “Era para comprar o isqueiro mais barato que tem", a senhora dá-nos um isqueiro minúsculo…
Com esse isqueiro, fiz a primeira faísca e acendeu, cheguei-me perto do local do sacrifício, quando de repente…
Tudo explodiu, o fogo veio-me à cara e, em acto reflexo, atirei-me para a relva. Fiquei completamente desnorteado e fui logo para casa.
Agora pergunto-me: “porque é que fui fazer tal coisa mais estapafúrdia?”
Ainda fiquei em casa a andar para trás e para a frente à espera que a dor passasse, e a dor, se querem saber, era mesmo muita.
"Será que vale a pena chamar a ambulância” , pensei. "Não, não vale a pena, isto à tarde já secou e nem se nota nada."
A dor tornou-se tão insuportável que tive que telefonar à minha mãe. Ela, batendo todos os recordes de velocidade, chegou a casa, e levou-me para o hospital (lugar onde trabalha), para as emergências. Conversámos pouco durante a viagem, ela conseguia, mesmo diante de uma acção tão ridícula como a minha, demonstrar alguma repreensão, mas acima de tudo, amor a preocupação. Creio que será algo que ainda me falta mesmo aprender a fazer...
Entrei logo nas urgêncais, sem esperar que o senhor (que nunca se percebe bem o que diz) me chamasse (afinal, talvez fosse grave o suficiente para chamar a ambulância …), deitaram-me numa maca, puseram-me gaze na cara, borrifaram-me a cara com um líquido, tão fresco, que parecia a água, água benta, que o "rico", estando em sofrimento, no hades, ansiava sentir na sua língua, implorando-a a "lázaro", que sentimento de frescura! Continuando com o espectáculo; tiraram-me a roupa, puseram-me umas fraldas (que já, por si, foi castigo suficiente do mal que tinha feito) e levaram-me para a cirurgia.
Fiquei num quarto esterilizado, porque não podia ter contacto com mais nenhum doente.
Fiquei internado durante duas semanas.


Agora, sempre que há churrascos, dizem todos a mesma piada.
"O Ismael acende a fogueira…"