quinta-feira, abril 04, 2013

O contexto



"Quero, do mesmo modo, que as mulheres se ataviem com traje decoroso, com modéstia e sobriedade, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos custosos, mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras. A mulher aprenda em silêncio com toda a submissão. Pois não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão; salvar-se-á, todavia, dando à luz filhos, se permanecer com sobriedade na fé, no amor e na santificação."                       
I Timóteo 2: 9- 15

A mais comum interpretação a este texto é que ele era destinado a uma circunstância cultural específica. Ou seja, este ensino era destinado aquela igreja naquela altura, porque haviam falsas profetas, então, na igreja a mulher não deveria ensinar. Esta explicação parece-me fraca, apesar de ser confortável, e por vezes até bem defendida. Melhor do que eu, com certeza, defenderei a minha causa.
Primeiro problema 
Imaginemos, então que sim, este ensino era cultural e o critério era: se há falsos mestres mulheres, as mulheres não devem ensinar na igreja.Não seria de esperar que os homens também não ensinassem? Sempre houve falsos mestres, falsos profetas masculinos e nem por isso a Palavra, em alguma altura, se refere a que o homem não ensine.
Segundo problema
Continuando a "ir à bola" com a ideia de que é cultural...Estamos a dizer, então, que na nossa cultura não existem falsas profetizas, nem falsas professoras.                                                                                                           Estão a falar a sério?
Terceiro problema
Não creio que seja um ensino cultural. O contexto imediato do texto que citámos acima fala da oração de devemos a todas as classes de pessoas. A "reis, e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranqüila e sossegada, em toda a piedade e honestidade." O cristianismo estava "nas mãos" do povo, e facilmente poder-se-ia tornar uma crença elitista, excluindo os poderosos. 
Em alguns círculos, ainda hoje, existe uma tendência para marginalizar os mais ricos ou mais poderosos. A fé também é para os poderosos e ricos e autoridades, e por eles também devemos orar.
Não é este, no entanto, o ponto que quero salientar. 
O que quero é perguntar: qual foi o critério para dizer que até ao versículo 8 do capítulo 2 não é cultural e do versículo 9 em frente é cultural?
Entramos, assim num caminho muito perigoso quando interpretamos desta forma a Bíblia.
Não nego que a interpretação que proponho também não apresente dificuldades. Apresenta certamente. Mas toda a Bíblia é Bíblia, e toda ela a Palavra de Deus. Sendo pastor de uma igreja, que por diversas razões, ainda não vive plenamente em obediência a estas instruções, sinto temor para que, pelo poder do Espírito Santo, de forma mansa e com toda a igreja na compreensão do perfeito plano de Deus, possamos, dia-a-dia caminhar rumo ao que o Senhor tem designado para a Sua igreja.
Uma coisa é certa, não será por força, nem será por imposição. Deus fará o trabalho.
Finalmente, espero conseguir ir explanando outros aspectos do texto acima apresentado, para, desta forma, também eu contribuir para a discussão deste tema.

4 comentários:

Ruben Couto disse...

Olá irmão!
Aqui vai um pequeno contributo meu, para esta conversa.
Primeiro e segundo problemas:
De fato, a explicação que aponta no sentido desta ser uma orientação contextualizada para aquela cultura específica, não resume o critério em “se há falsos mestres mulheres, as mulheres não devem ensinar na igreja”. Como é evidente, sempre existiram falsos mestres masculinos e não existe qualquer proibição para que os homens ensinem ou falem. Ultrassimplificar o critério não ajuda a entender o texto nem a sua interpretação. Por um lado, precisamos entender que, naquele contexto cultural, de domínio marcadamente masculino, só a muito custo e a pouco e pouco é que a mulher ia recuperando um pouco da dignidade que Deus sempre lhe reconheceu e que o próprio Jesus restaurou. Ou seja, para muitos (mesmo dentro da igreja), a presença da mulher era desconfortável e incómoda. Este mal-estar presente na cultura judaica daquela época que acompanhou o crescimento do cristianismo, é grandemente agravado quando algumas mulheres, enganadas por falsos mestres, começam a espalhar heresias. Mas, o problema não era só este. Além das falsas doutrinas, existiam diversos cultos pagãos, em que sacerdotisas sagradas conduziam os respetivos “fiéis” em inúmero atos de imoralidade sexual. Ainda há quem saliente, por outro lado, uma dificuldade acrescida que era o fato da mulher daquela época ter um grau de escolaridade e autonomia extremamente mais baixo do que os dos homens. Não só eram privadas de oportunidades de aprendizagem, como casavam muito novas, com homens mais velhos. Esta circunstância cultural pesava imenso nas oportunidades que as mulheres tinham naquela época.

Não podemos, portanto, simplificar o problema e dizer que se era porque as mulheres falavam heresias, a mesma regra tinha que ser aplicada ao homem. A realidade é que, naquela cultura, naquele contexto, as oportunidades não eram iguais para homens e mulheres e uma série da fatores pesaram na orientação que Paulo deu. A sua preocupação de que a mulher da igreja não fosse identificada com as sacerdotisas sagradas, o propósito de impedir que mulheres da própria igreja não usassem as oportunidades de ensino, para difundir heresias e a sua compreensão dos bloqueios culturais que aquela sociedade tinha para com as mulheres, tiveram, como toda a certeza uma enorme influência na sua orientação.

Ruben Couto disse...

Aqui vai o resto.


Terceiro problema:

Mesmo os defensores de uma aplicabilidade contextualizada e não universal desta orientação, como eu, entendem que não é hermenêuticamente correto considerar a interpretação de forma tão estanque como pareces querer dizer que o fazem. É necessário compreender, em primeiro lugar que, toda a Bíblia foi escrita num contexto cultural, pelo que tem aplicação cultural, e tem princípios universais, por isso, aplica-se universalmente. Portanto, tanto até ao versículo 8, como depois do 8, existem aspetos e preocupações culturais, bem como princípios de aplicação universal.

Um dos princípios que deve presidir à interpretação saudável das Escrituras é, como sabes, o fato da Bíblia se interpretar a si própria. Isto é, a melhor forma de entender o que um texto afirma sobre determinado assunto é interpretá-lo à luz de todos os outros textos bíblicos que se referem ao mesmo assunto e que se encontram relacionados. Esta não é uma tarefa fácil, particularmente quando se tratam de assuntos enraizados em aspetos culturais, quer relativos ao tempo em que foram escritos, quer em relação aos contextos em que vivem os intérpretes da Bíblia. Este texto é um exemplo disso mesmo. Não acredito numa resposta fácil, neste caso. Mas, parece-me que entender a orientação de Paulo como circunscrita àquele contexto, coaduna-se com o abundante registo bíblico de mulheres a ensinar e a falar na igreja (refiro-me a alguns destes textos em http://vidaemabundancia.blogspot.pt/2013/04/consagracao-feminina-ao-pastorado-i.html). O que não significa que, a partir desta orientação particular, não se possam e devam extrair princípios universais, como por exemplo, o cuidado e vigilância contra as falsas doutrinas, o reconhecido valor que os momentos de ensino-aprendizagem devem ter e a atitude de submissão que, de acordo com o restante ensino bíblico, se pretende mútua e recíproca.

Ismael disse...

A solução que apresentas para a primeira parte do texto, parece-me ainda mais problemática. Paulo não disse que as mulheres não podiam ensinar porque não tinham formação, ou porque a sociedade era marcadamente masculina. Até porque essa não é a razão que Paulo apresenta. A razão prende-se com a criação e funções entre o casal e com a queda. Creio que em vez de dizermos que Paulo escreveu o que escreveu porque haviam circunstancias (que creio serem reais) que não estão explícitas no texto, devemos dizer que Paulo escreveu pela razão que ele próprio apresenta no texto.
A interpretação da Bíblia por si própria é exactamente o que eu alego para clarificar textos que não são claros e que usas como sendo claros. por exemplo o caso de Priscila e Áquila. devemos interpretar o ensino ministrado, não com base em suposições mas em concordância no que temos claramente em outros textos, acerca da família e eclesiologia.
Os textos claros é que clarificam os obscuros, não o contrário.
Um abraço muito forte.

Ruben Couto disse...

Hello!

Compreendo a tua preocupação e acho-a válida. Procura entender a minha: Julgo ser igualmente perigoso (se não mais) seguir uma linha de interpretação que conduz a contradições com o demais registo bíblico, as quais são, à posteriori e de forma arbitrária designadas como exceções. Refiro-me a estas incongruências em http://vidaemabundancia.blogspot.pt/2013/04/consagracao-feminina-ao-pastorado-i_5.html.